28.3.11

Fruto do Mundo

Estou acima, no céu. ou eu sou o Céu, porque não há possibilidade de vêlo de onde estou, não olho para trás porque não há absolutamente nada atrás de mim. São quilômetros e quilômetros de mata virgem e pura abaixo de mim. Existem uns flashes na minha visão, de seres humanos vivendo naturalmente, ou seja, da terra, pra terra. Crianças nuas brincando em beiras de lago, mulheres cuidando de seus filhos, maridos buscando sobrevivência. E não são os de mentalidade pré-histórica. São de mente mais avançada que a nossa. Eles se preocupam com questões filosóficas. Aliás, não se preocupam de forma nenhuma. Apenas convivem e aperfeiçoam conhecimento. 
flashes contrários a esses. Homens, nulheres e crianças latinoamericanas, com dor nos olhos. Mas mesmo com essa dor se divertem, dançam, cantam, se abraçam. Esses são contemporâneos. Mas toda essa gente está longe de existir na mata virgem que é o plano principal. Essa mata é inabitada por humanos, e respira muito bem assim. E meu coração se enche de paz. Seja eu lá o que for, seja eu o Céu. Abraço essa terra com o calor do Sol, mas não a queimo nem acabo com sua atmosfera. Sei do meu poder e respeito sua capacidade, abraçando de leve. Sinto que estou de braços abertos e esticados, de uma maneira que não dói, como se eu estivesse deitada, estirada num colchão macio como se fosse a melhor coisa do mundo.
Mundo. É uma linda palavra. Mundo é tudo, é infinito mesmo com seus limites. É belo, mesmo que existam coisas que não façam bem. Porque existe beleza também no que não é bom. É só olhar por outro ângulo.
E o mais bonito é o visto de cima, eu inclino a cabeça pra cima, me asseguro que meus braços estejam bem confortáveis e esticados, e apenas me deixo ir. E o que me leva é:
Fruto do mundo
Somos os homens
Pequenos girassois
Os que mostram a cara
E enorme as montanhas
Que não dizem nada
Incapaces los hombres
Que hablam de todo
Y sufren callados

Requiem para uma Flor - Raul Seixas


O texto a seguir não tem nada a ver com minha visão, ou tem, de certa forma. Descreve a música de uma maneira mais politizada, mais social e humana. Recomendo, porque é muito bom. Raul Seixas no pensamento contemporâneo.

24.3.11

Quero Ser o Homem que Sou

Esses dias me dediquei a visitar e comentar blogs, coisas que não fazia há um bom tempo. Daí vi um blog de uma menina que viajou pra Argentina e etc.
Lembro-me da vez que fui à Argentina - passeio rápido na cidade da fronteira. Era passeio de escola, que fora premiada por reciclagem. Estava na 6ª série na época, e tudo bem que eu já era grandinha pra entender as coisas, aproveitar a viagem pra Foz do Iguaçu e etc, mas até hoje não me caiu a ficha. Foi uma coisa que eu nunca pensei em fazer, sabe? Mas não é disso que eu vim falar aqui. Tem a ver com a Argentina sim, mas não com minha passagem rápida por lá.
Tem a ver com irmãos de revolução e ideais. Dois países latino-americanos semelhantes, ao mesmo tempo amigos e rivais. Quem não conhece o Brasil pensa que sua capital é Buenos Aires. Quem não conhece Argentina diz que argentino é metido a besta e não sabe perder. Tolice! Balela! Mas esses dois irmãos tem mais semelhanças. Muitas mais. Ditadura militar, desigualdade social, cinema, revolucionários preocupados com o povo à sua volta.
Ernesto e Raul. Conhecem? Dois homens que na minha opinião foram gênios políticos, muito corajosos e perspicazes. São exemplo de luta por um mundo melhor. Um, revolucionário ativo, de guerra, de luta direta contra o governo capitalista que só promove desigualdade e pobreza. Outro, fez sua revolução com as palavras, com melodia, com graça. Não se calou nem quando era assunto de vida ou morte. A Mosca na Sopa que perturbou o sono de muito político pela década de 1970 e 1980. Dois revolucionários que iam contra a massa e não tinham vergonha nem medo de mostrar quem eram e pra que vieram. E não tenho como agradecer.
Como disse, passeava por blogs alheios quando achei esse da menina da Argentina. E tinha uma imagem de um ônibus.
Cada persona es un mundo.
 Na hora me veio à mente a música Meu Amigo Pedro do Raulzito. Uma música que ouço desde pequena porque papai acha engraçada e bem escrita - mesmo assim desconfio que ele não a entenda de verdade. O trecho em questão fala assim:
Cada um de nós é um Universo.
Daí eu, que sou cheia das teorias aditivas, junto A+B (e o alfabeto inteiro), fiquei matutando. Dois barbudões, dois exemplos para mim, dois machos (no sentido de não fugir da raia), dois caras que se importaram de verdade conosco, que morreram quarentões (mesmo que o modo fosse absolutamente diferente), dois irmãos latino-americanos, que além de tudo nasceram em países também semelhantes... Isso quer dizer alguma coisa! E isso é o que eu ainda não descobri, e provavelmente não descobrirei. A frase do ônibus não era de Che, mas Che era daquele país. Não entendem onde quero chegar, né?
O ponto é o orgulho e a admiração que eu sinto. Tanto que nem que eu quisesse eu escreveria um texto bom de verdade que chegasse aos seus pés. Fico com este daqui mesmo, porque sou humana errante e inexperiente. Mas fica contido o meu amor por eles e por anônimos que seguiram o mesmo caminho. Que não tiveram medo de cara feia, de vaia, de armas de fogo ou armas de qualquer outro material físico, mental, abstrato ou o que quer que seja.
Ver que dois revolucionários parecidos, e que dois países parecidos têm suas coisas parecidas, só me leva a crer que isso é mais que uma verdade, é uma lei. Sim, cada um de nós é um universo, com toda uma organização, onde pegamos verdades daqui e dali, e montamos a nossa, acreditamos e vivemos disso. Então, já que cada um de nós é um universo, com ideias e opiniões diferentes, como já diz a música, não me critique como eu sou.
Outra prova de que tudo isso faz sentido mesmo que você não entenda e me chame de careta, utópica ou sonhadora, até mesmo sem nexo: no dia seguinte achei imagem de Raul vestido de Che, e ouvi um pedaço de um show no qual ele falava de censura. Fico por aqui, porque senão escrevo um livro com todas as similaridades de todas as suas músicas com vários outros pedaços da História. Termino esse post deixando as imagens e frases marcantes desses dois garotos sonhadores que só queriam justiça. Atenção! Terminando o texto lembrei de uma música que CASA DE PAPEL PASSADO E INTRANSFERÍVEL com tudo o que eles e eu dissemos. O vídeo também ilustra bem toda a sensação de onde quero chegar, além de ser de certa forma cômico. Vejam que não se arrependerão.

“Olha aqui, esse show, essa pequena amostra, uma amostra compacta de alguns rocks, no tempo de 50 e dos primordios, mas eu vou incluir um meu aqui, que pediram, é o Rock das Aranhas. O célebre… O célebre, vocês sabem, que existe, um dicionário, que saiu agora, chamado ‘dicionario da censura’, o dicionario da censura é o seguinte: todo compositor brasileiro tem a obrigação de receber um dicionário dessa grossura assim, com todas as palavras proibidas. Inclusive, uma palvra proibida, eu não sei porque, é…é, povo, gente, universidade… escola. Não pode se falar em música, inclusive pintou a palavra aranha depois de mim… Eu fui o percursor da aranha (risos)… Depois de Deus”







"Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário"

13.3.11

Bring The Boys Back Home

Já percebi que de uns anos pra cá estou numa metamorfose braba, expandindo conceitos, estilos, opiniões, abrindo a mente. Mas deu uma pane no meu sistema essa semana. Tão séria a coisa que me senti perdida e travada de certa forma, tudo por culpa da minha característica de acreditar em absolutamente tudo. Quando vejo uma multidão crendo em algo, chego logo contradizendo e estudando seus inimigos. Porque detesto quem tem só uma opinião lapidada na testa, imutável. Essa sede de ser contra o que a sociedade acredita e acreditou nos últimos milhares de anos é enorme. Me orgulho, claro, e me contradizo, porque avalio os prós e contras de cada lado, e assim acabo misturando A com B. Pode parecer uma bagunça (e é, estou tentado usar um tempo pra pôr no papel tudo que penso e dispenso das ideias, pra poder me situar), mas é interessante não se prender às regras do que é certo e o que é errado.

Quando estudo uma coisa, caio dentro do mar de ideias e acabo por me afogar. Isso se não faço tudo simultaneamente. Então, fico paranóica, em pânico, melancolia quase que sem fim. Normal, como boa pessimista que sou, sofro antecipadamente.

Agora é a hora da ufologia - algo que sempre acreditei -, mas esse tema é tão maior do que eu pensei, tão mais sério (céticos, ridicularizem à vontade, nothing else matters), que eu simplesmente parei em algum lugar no tempo e no espaço. As crenças que eu poderia ter tido antes estão difusas, tudo o que eu faço por fora está em segundo plano, e eu vejo a hora em que eu vá explodir. Faz parte.

Mas eu tenho uma carta na manga:

Sim, meus textos sempre voltam à estaca zero. Não há pra onde correr quando o negócio é a música. Não importa o que eu pense, o que eu fale, o que me façam, como esteja meu estado de espírito. Me sinto morta quando a melodia não chega aos meus ouvidos. Me sinto desorientada.

A letra da música muitas vezes surpreendentemente se encaixa com o momento, principalmente politicamente falando. Mas é a melodia que me remete à tempos remotos e aparentemente nunca visitados por mim. Campos sem fim, desertos com prédios de concreto interminados e cuja obra abandonada, algo no ar que palavras são incabíveis de tão pequenas. Eu estive lá, não em sonho, não em pensamento, não nessa vida. Mas estive. É como uma saudade de tempos que não vivi, de coisas que não aconteceram, ou de ambientes dos quais só eu visitei ou senti. Não existe tempo, não existe passado, futuro. Tudo é o agora, um presente infinito de grandeza inimaginável. Como minha verdadeira casa. Meu verdadeiro lar. Talvez seja uma ou várias dimensões acima desta, que cada vez se torna mais confortável, familiar, habitual.

Não é por coincidência tudo o que me rodeia. Não é coincidência meu gosto musical, político, filosófico. Ultimamente não creio em coincidências. Porque tudo isto me é tão familiar, tão meu de certa forma, como se fossemos um só, uma enorme colônia imortal em outros mundos, outros campos, talvez em mente, talvez em outra dimensão. É complicado explicar algo que mesmo tão presente ainda está as escuras. É como se eu estivesse chegando na abertura da caverna escura e focada numa só direção, sentindo o cheiro da liberdade de sentimentos e ideias, sentindo que está cada vez mais perto de quebrar o muro que me prende, mas ainda com correntes infincadas nos pés, me impedindo de ir mais além.

Sei que está chegando a hora. De alguma forma irei quebrar esse muro entre o aqui e o lá - espero que ainda em vida - e irei desfrutar do meu infinito imortal.
Tudo isso é como uma grande viagem, como se eu estivesse dentro de um carro numa estrada sem fim, mas esse carro não existe, é o que se aproxima mais da minha visão, porque nela não estou a pé. Vejo a infinidade do céu, da terra, do ar, e por mim ficaria por toda a eternidade observando, sentindo, desfrutando.

Penso que a verdadeira Helen está lá, esperando por mim, junto com todos esses que admiro e amo, que me acalmam quando desespero, que me confortam quando não estou bem sitiada. "Calma, eles dizem, estamos contigo, lembre-se um pouquinho de nós, de nossa terra, não se sinta estranha aí no inferior, você tem uma grandiosidade que será desfrutada sempre que quiser, é só não se esquecer de nós."

Acreditem, nunca me senti tão sublime e completa, tão confortável em outro ambiente. Nunca me expressei de forma tão próxima - mas ainda distante - do que vejo. É um ganho inestimável, agradeço a quem quer que seja que contribuiu com minha reflexão, agradeço a quem está me ajudando a lembrar da minha casa.